(do livro "Sobre Heróis e Tumbas, do argentino Ernesto Sábato)
De "Os rostos invisíveis":
- Então você não acredita na verdade?
- Acredito que a verdade está bem nas matemáticas, na química, na filosofia. Não na vida. Na vida é mais importante a ilusão, a imaginação, o desejo, a esperança. Além disso, sabemos acaso o que é a verdade? Se eu lhe digo que aquela janela é azul, digo uma verdade. Mas é uma verdade parcial, e portanto uma espécie de mentira. Porque esta janela não está só, está em uma casa, em uma cidade, em uma paisagem. Está rodeada do cinza deste muro de cimento, do azul claro deste céu, daquelas nuvens alongadas, de infinitas coisas mais. E se não digo tudo, absolutamente tudo, estou mentindo. Mas dizer tudo é impossível, ainda que neste caso da janela, de um simples pedaço da realidade física, da simples realidade física. A realidade é infinita e tem infinitos matizes, e se me esqueço de um só matiz já estou mentindo. Agora, imagine o que é a realidade dos seres humanos, com suas complicações e rodeios, contradições e que ainda por cima estão sempre mudando. Porque muda a cada instante que passa, e o que éramos há um momento já não somos mais. Somos, acaso, sempre a mesma pessoa? Temos, acaso, sempre os mesmos sentimentos? Se pode amar alguém e logo depois não mais querer-lhe e até odiar-lhe. E se quando o odiamos cometemos o erro de dizer-lhe, isto é uma verdade, mas uma verdade momentânea, que não será mais verdade dentro de uma hora ou no outro dia ou em outras circunstâncias. E em compensação o ser a quem dissemos acreditará que essa é a verdade, a verdade para sempre e desde sempre. E afundará no desespero.
(...)
Toda consideração abstrata, ainda que se referisse a problemas humanos, não servia para consolar a nenhum homem, para mitigar nenhuma das tristezas e angústias que pode sofrer um ser concreto e de carne e osso, um pobre ser com olhos que miram ansiosamente (para que ou para quem?), uma criatura que somente sobrevive pela esperança. Porque felizmente (pensava) o homem não está feito só de desespero mas de fé e esperança; não só de morte mas também de anseio de vida; tampouco unicamente de solidão mas também de momentos de comunhão e amor. Porque se prevalecesse o desespero, todos nos deixaríamos morrer ou nos mataríamos, e isso não é de maneira nenhuma o que acontece. O que demonstrava, a seu juízo, a pouca importância da razão, já que não é razoável manter esperanças neste mundo em que vivemos. Nossa razzão, nossa inteligência, constantemente nos estão provando que este mundo é atroz, motivo pelo qual a razão é aniquiladora e conduz ao ceticismo, ao cinismo e finalmente à aniquilação. Mas, por sorte, o homem não é quase nunca um ser razoável, e por isso a esperança renasce uma e outra vez em meio das calamidades. E este mesmo renascer de algo tão disparatado, tão desprovido de todo fundamento, é a prova de que o homem não é um ser racional. E assim, tão só os terremotos arrasam uma vasta região do Japão ou do Chile; uma gigantesca inundação liquida a centenas de milhares de chineses na região do Yang Tsé; uma guerra cruel e, para a imensa maioria das vítimas, sem sentido, como a Guerra dos Trinta Anos, mutilou e torturou, assassinou e violou, incendiou e arrasou a mulheres, crianças e povos, já os sobreviventes, os que apesar de tudo assistiram, espantados e impotentes, a essas calamidades da natureza ou dos homens, esses mesmos seres que naqueles momentos de desespero pensaram que nunca mais queriam viver e que jamais reconstruiriam suas vidas nem poderiam reconstruir-las ainda que quisessem, esses mesmos homens e mulheres (sobretudo mulheres, porque a mulher é a própria vida e a terra mãe, a que jamais perde um último resto de esperança), esses precários seres humanos já começam de novo, como formiguinhas tontas mas heróicas, a levantar seu pequeno mundo de todos os dias: mundo pequeno, é certo, mas por isso mesmo mais comovedor. De modo que não eram as idéias que salvavam o mundo, nem o intelecto nem a razão, senão o contrário: aquelas insensatas esperanças dos homens, sua fúria persistente para sobreviver, sua ânsia de respirar enquanto seja possível, seu pequeno, teimoso e grotesco heroísmo de todos os dias frente ao infortúnio. E se a angústia é a experiência do Nada, algo assim como a prova ontológica do Nada, não seria a esperança a prova de um Sentido Oculto da Existência, algo pelo qual vale a pena lutar? E sendo a esperança mais poderosa que a angústia (já que sempre triunfa sobre ela, porque se não todos nos suicidaríamos), não seria esse Sentido Oculto mais verdadeiro, por dizer assim, que o famoso Nada?
(...)
E recordou algo que lhe havia dito Bruno: que sempre é terrível ver a um homem que se crê absoluta e seguramente só, pois há nele algo de trágico, talvez até de sagrado, e ao mesmo tempo horrível e vergonhoso. Sempre - dizia - levamos uma máscara, uma máscara que nunca é a mesma, mas que muda para cada um dos papéis que assumimos na vida: a do professor, a do amante, a do intelectual, a do marido enganado, a do herói, a do irmão carinhoso. Mas que máscara pomos ou que máscara nos sobra quando estamos na solidão, quando acreditamos que ninguém, ninguém nos observa, nos controla, nos escuta, nos exige, nos suplica, nos intima, nos ataca? Acaso o caráter sagrado desse instante se deve a que o homem está então frente à Divindade, ou pelo menos ante sua própria e implacável consciência. E talvez ninguém perdoe ser surpreendido nessa última e essencial nudez de seu rosto, a mais terrível e a mais essencial das nudezes, porque mostra a alma sem defesa.
De "Um deus desconhecido":
Havia de transcorrer muitos anos, sofrer muitos golpes, perder grandes ilusões e conhecer multidões de gente para recuperar em certo modo ao meu pai e à minha terra natal; já que sempre o caminho até o mais íntimo é um longo périplo que passa por seres e universos. Assim recuperaria a meu pai. Mas, como quase sempre acontece, quando era tarde demais. Se naquele momento houvesse intuído que o via são pela última vez, se ouvesse adivinhado que vinte e cinco anos depois o veria convertido em um monte sujo de ossos e vísceras em podridão, olhando-me tristemente desde o fundo de uns olhos já quase alheios a este mundo, então haveria tratado de compreender aquele homem áspero mas bom, enérgico mas cândido, violento mas puro. Mas sempre entendemos tarde demais aos seres que estão mais perto de nós, e quando começamos a compreender este difícil ofício de viver já temos que morrer, e sobretudo já morreram aqueles a quem mais haveria importado aplicar nossa sabedoria.
Quando voltei a Buenos Aires ainda não tinha idéia do que haveria de estudar. Queria tudo ou talvez não queria nada. Gostava de pintar, escrevia contos e poemas. Mas era isso uma profissão? Alguém podia dizer a sério às pessoas que queria dedicar-se a pintar ou escrever? Não eram mais passatempos de gente desocupada e sem responsabilidade? Todos os demais pareciam tão sólidos, instalados nas faculdades de Medicina ou Engenharia, estudando a forma de curar uma escarlatina ou de levantar uma ponte, que eu mesmo não me levava a sério. Por essa espécie de pudor, pois, ingressei na Faculdade de Direito, ainda que no mais íntimo de meu espírito estava seguro de que jamais seria capaz de trabalhar como advogado.
(...) não há casualidades, apenas destinos. Não se encontra senão o que se busca, e se busca o que de certo modo está escondido no mais profundo e escuro de nosso coração.
"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
2 comentários:
Belíssima passagem, do livro "Sobre Heróis e Tumbas", tomei a liberdade de "replicar" em uma comunidade do facebook.
Hello. And Bye.
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