"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
ANTES QUE SEJA TARDE...
PS: Pero nada me hará tán feliz como dos margaritas...
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Sobre a lucidez
José Saramago, em Ensaio sobre a lucidez
domingo, 30 de setembro de 2007
O que é, o que é
It's like rain on your wedding day
It's a free ride when you've already paid
It's the good advice that you just didn't take
Who would've thought...it figures
Ou, como diz, Vinicius:
sei lá, sei lá,
a vida é uma grande ilusão
sei lá,
só sei que ela está coma razão
Mas eu ainda fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida, e é bonita, e é bonita...
Preguiça: liberdade e resistência
LIBERDADE
Fernando Pessoa
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro pra ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por Dom Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
É Jesus Cristo,
Que não sabia de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
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MUDAR O MUNDO SEM TOMAR O PODER (trecho)
John Holloway
"Sejamos preguiçosos em tudo, exceto ao amar e beber, exceto em sermos preguiçosos". Lafargue começa sua obra The right to be lazy (O direito à preguiça) com essa citação, querendo dizer que não há nada mais incompatível com a exploração capitalista do que a preguiça defendida por Lessing. Na sociedade capitalista, no entanto, a preguiça implica uma rejeição a fazer, uma afirmação ativa de uma prática alternativa. Fazer, no sentido em que o entendemos aqui, inclui a preguiça e a busca do prazer, práticas que são negativas em uma sociedade baseada em sua negação. Em um mundo baseado em uma conversão do fazer em trabalho, a rejeição pode ser vista como uma forma efetiva de resistência.
domingo, 23 de setembro de 2007
Mais trabalho
Trabalhador
As vezes você tem que ficar sozinho né?
Não quer, mas tem. Não tem pra quem ligar
ou ninguém que vá atender pode falar o que é certo.
Você tem que por em prova teus princípios,
Se você vale tanto quanto isso tudo que você tem.
Se você cumpre o que fala,
Se você é civilizado.
Porque deve-se ser alguém pelos outros,
essa imagem tem que ser mantida, a todo custo.
Acho que é assim na vida pessoal hoje em dia.
Quanto ao trabalho(que palavra infeliz) cada um pensa o que pode,
Tem gente que diz que é dignidade.
Pois então estou cheio dela, hoje é domingo e trabalhei o dia todo num serviço cansativo e que me deixou mal porque estava muito calor.
Eu não quero essa dignidade, pensei que quando eu trabalhasse eu iria gostar, a gente tenta entender porque uma coisa é jogada na sua mente a vida toda, mas eu desistiria dessa dignidade e de toda essa imagem se pudesse.
Não dá sobreviver, é isso. Ae falam: "Você pode criticar, mas vai viver do sistema".
Claro, existe essa chantagem, ou me alieno por salario ou passo fome. Mas não dá pra aceitar a humilhação que alguns seres humanos passam. Sem falar no que anda acontecendo com o futuro dos outros.
Nessa Terra que não vai sobrar muita coisa pra provar que a gente viveu muito bem.
Eu não sou desses que vira a cara quando vê um mendigo.
Isso é dignidade, perceber o problema e não aceitar.
Tá eu não posso viver sem estar no sistema, mas mesmo assim
Com pouca chance de sucesso contra os que estão por cima,
Sem mais motivos e sem muita lógica,
Isso não dá pra ser aceito.
Quando Quiser
Arnaldo Antunes
acabou a hora do trabalho
começou o tempo do lazer
você vai ganhar o seu salário
pra fazer o que quiser fazer
o que você gosta e gostaria
de estar fazendo noite e dia
ler, andar, ir ao cinema, brincar com seu nenén
e até mesmo trabalhar também
quando quiser, se assim quiser
se assim quiser, como quiser
como quiser, quando quiser
ir de bicicleta ao mercado
escolher um peixe pro jantar
encontrar a namorada ou o namorado
escolher alguém pra visitar
quando quiser, se assim quiser
se assim quiser, como quiser
como quiser, quando quiser
Idéias de Canário
UM HOMEM dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração.
No princípio do mês passado, — disse ele, — indo por uma rua, sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de uma loja de belchior. Nem o estrépito do cavalo e do veículo, nem a minha entrada fez levantar o dono do negócio, que cochilava ao fundo, sentado numa cadeira de abrir. Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabeça enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente não achara comprador. Não se adivinhava nele nenhuma história, como podiam ter alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas.
A loja era escura, atulhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dous cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja mas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão.
Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. Tão velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava-lhe estar vazia. Não estava vazia. Dentro pulava um canário. A cor, a animação e a graça do passarinho davam àquele amontoado de destroços uma nota de vida e de mocidade. Era o último passageiro de algum naufrágio, que ali foi parar íntegro e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais abaixo e acima de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio daquele cemitério brincava um raio de sol. Não atribuo essa imagem ao canário, senão porque falo a gente retórica; em verdade, ele não pensou em cemitério nem sol, segundo me disse depois. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela vista, senti-me indignado do destino do pássaro, e murmurei baixinho palavras de azedume.
— Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente, não querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela?
E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:
— Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu juízo. Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. São imaginações de pessoa doente; vai-te curar, amigo...
— Como — interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Então o teu dono não te vendeu a esta casa? Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol?
— Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas estou que confundes.
— Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém, salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado.
— Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo.
Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as idéias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, saía do bicho em trilos engraçados. Olhei em volta de mim, para verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja escura, triste e úmida. O canário, movendo a um lado e outro, esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do espaço azul e infinito. . .
— Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço azul e infinito?
— Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que cousa é o mundo?
— O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.
Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os pés. Perguntou-me se queria comprar o canário. Indaguei se o adquirira, como o resto dos objetos que vendia, e soube que sim, que o comprara a um barbeiro, acompanhado de uma coleção de navalhas.
— As navalhas estão em muito bom uso, concluiu ele.
— Quero só o canário.
Paguei-lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e arame, pintada de branco, e ordenei que a pusessem na varanda da minha casa, donde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do céu azul.
Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por alfabetar a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências. Feita essa análise filológica e psicológica, entrei propriamente na história dos canários, na origem deles, primeiros séculos, geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação, etc. Conversávamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando, saltando, trilando.
Não tendo mais família que dous criados, ordenava-lhes que não me interrompessem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente, ou visita de importância. Sabendo ambos das minhas ocupações científicas, acharam natural a ordem, e não suspeitaram que o canário e eu nos entendíamos.
Não é mister dizer que dormia pouco, acordava duas e três vezes por noite, passeava à toa, sentia-me com febre. Afinal tornava ao trabalho, para reler, acrescentar, emendar. Retifiquei mais de uma observação, — ou por havê-la entendido mal, ou porque ele não a tivesse expresso claramente. A definição do mundo foi uma delas. Três semanas depois da entrada do canário em minha casa, pedi-lhe que me repetisse a definição do mundo.
— O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.
Também a linguagem sofreu algumas retificações, e certas conclusões, que me tinham parecido simples, vi que eram temerárias, Não podia ainda escrever a memória que havia de mandar ao Museu Nacional, ao Instituto Histórico e às universidades alemãs, não porque faltasse matéria, mas para acumular primeiro todas as observações e ratificá-las. Nos últimos dias, não saía de casa, não respondia a cartas, não quis saber de amigos nem parentes. Todo eu era canário. De manhã, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e por-lhe água e comida. O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava qualquer preparo científico. Também o serviço era o mais sumário do mundo; o criado não era amador de pássaros.
Um sábado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doíam-me. O médico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, não devia ler nem pensar, não devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e só então soube que o canário, estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para esganar o criado; a indignação sufocou-me, caí na cadeira, sem voz, tonto. O culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho é que fugira por astuto...
— Mas não o procuraram?
— Procuramos, sim, senhor; a princípio trepou ao telhado, trepei também, ele fugiu, foi para uma árvore, depois escondeu-se não sei onde. Tenho indagado desde ontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareiros, ninguém sabe nada.
Padeci muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com algumas horas pude sair à varanda e ao jardim. Nem sombra de canário. Indaguei, corri, anunciei, e nada. Tinha já recolhido as notas para compor a memória, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes chácaras dos arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta:
— Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?
Era o canário; estava no galho de uma árvore. Imaginem como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doudo; mas que me importavam cuidados de amigos? Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular. . .
— Que jardim? que repuxo?
— O mundo, meu querido.
— Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.
Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já fora uma loja de belchior. . .
— De belchior? trilou ele às bandeiras despregadas. Mas há mesmo lojas de belchior?
Hoje é domingo
Não é sete de setembro, nem dia de finados. Não é sexta-feira-santa nem um outro feriado. Justamente o tão esperado dia de descanso, é também o mais melancólico pela segunda que anuncia. Engraçado que não costumamos notar a cruel contradição que é ter que passar uma semana inteira sendo consumidos pelas obrigações infinitas do trabalho, estudos, etc, etc, para enfim termos direito a um dia para aproveitarmos a vida. Na verdade, partindo da definição de tempo de “Momo e o Sr. Do Tempo”, se tempo é tempo vivido, é o tempo em que nos sentimos realmente vivos, e se durante a semana somos progressivamente submetidos a mais alienação e insensibilidade para termos que dar conta de cada vez mais obrigações, é como se, na verdade, estivéssemos vivendo um dia por semana. E o pior é que a música dos Titãs vai ficando cada vez mais desatualizada, “tudo está fechado” é coisa do passado, cada vez mais “tudo está abrindo” aos domingos, o que quer dizer que cada vez mais menos pessoas podem curtir o domingo. Essa sensação de perda do controle sobre o próprio tempo, sobre a própria vida, foi muito bem interpretada em duas músicas de duas de minhas bandas favoritas, Pato Fu e Engenheiros do Hawaii. Seguem trechos das letras das duas abaixo. Quanto a mim, não sei o que fazer, mas já vou, antes que eu confunda o domingo com a segunda...
“Tenho vivido um dia por semana,
Acaba a grana, mês ainda tem,
Sem passado, nem futuro
Eu vivo um dia de cada vez
Quantas vezes eu estive
Cara a cara com a pior metade
Quantas vezes a gente sobrevive
À hora da verdade...
Se eu soubesse antes o que sei agora,
Iria embora antes do final...”
“Quase não me sobra tempo algum
Não conheço bem lugar nenhum
Fora do trabalho
Eu acho essa cidade tão ruim.
Sou tão dedicado a ser comum
Anos vão passando um a um
E o tempo pela frente comigo é diferente
Conto assim: sete catorze vinte e um...”
Pato Fu, Amendoim
sábado, 15 de setembro de 2007
Diante da Lei
Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde. - "É possível" - diz o guarda. - "Mas não agora!". O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz: - "Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara: sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim".
O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado. Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferença, à semelhança dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar.O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo mas diz sempre: - "Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste".
Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura-se-lhe o único obstáculo à entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil, e como ao fim de tanto examinar o guarda durante anos lhe conhece até as pulgas das peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão, um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está próxima.
Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo. - "Que queres tu saber ainda?", pergunta o guarda. - "És insaciável".
- "Se todos aspiram a Lei", disse o homem. - "Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?". O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte: - "Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a".
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
No Caminho, com Maiakóvski
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!
sábado, 4 de agosto de 2007
Tudo que eu podia ser
Essa música foi gravada em 1972 em um dos meus discos preferidos: Clube da Esquina. A interpretação maravilhosa é de Milton Nascimento, e a letra é de Lô e Márcio Borges. Pra mim, soa como um alerta desesperado, urgente, e muito triste sobre tudo o que eu quero, posso e consigo ser. Ou nada.
Tudo que você podia ser
Com sol e chuva
Você sonhava que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser
Sei um segredo
Você tem medo, só pensa agora
Não
Tudo que você devia ser, sem medo
E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser, na estrada
Há sol e chuva na sua estrada
Mas não importa, não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser, ou nada
domingo, 17 de junho de 2007
Zapatismo: Liberdade, Democracia e Justiça

5 SONHOS DO ZAPATISMO, 5 SONHOS PARA A RESISTÊNCIA
César Enrique Pineda Ramírez
18 de fevereiro de 2005.
Imaginem por um momento que o capitalismo é uma edificação. Uma voluptuosa e faraônica obra que a humanidade construiu nos séculos recentes. Um sólido muro, quase perfeito que não pode desintegrar-se, já que os materiais com que é feito são a dominação, a exploração e a alienação. Se alguém olha o muro, parece que não há forma de derrubá-lo. Parece impenetrável, inexpugnável. Não há maneira de escapar do muro.
Aproximen-se agora um pouco do muro. Olhem detidamente. Seus olhos têm que fazer um grande esforço. O muro... tem uma fenda. É uma pequena rachadura, quase imperceptível. Por essa abertura, se uma pessoa focaliza bem a vista, parece que se pode ver do outro lado. Mas a rachadura não deixa ver muito bem. É uma fissura, que parece, não faz nenhum dano à solidez do grande muro. Essa fissura, é o zapatismo.
O zapatismo nos ajuda a ver do outro lado. A sonhar com o outro lado, já que mal podemos ver uma pequeníssima parte. Alguns dizem, que esta idéia é uma ilusão, algo infantil, mal uma quimera juvenil, desorientada e confusa. Nós cremos que é uma possibilidade, uma rota por explorar, um caminho que quiçá podemos caminhar.
O zapatismo nos ajuda a pensar ao inverso. De fato, em muitas formas, é uma revolução ao inverso. É um exército que não usa suas armas. São revolucionários que falam de amor. É uma forma de fazer política que não procura tomar o poder. São indígenas pobres, não uma vanguarda iluminada cujo programa, liderança e carisma se tenha que seguir cegamente.
O zapatismo tem muitas possibilidades de interpretação e de leituras. Façamos uma mais. Reorganizemos as contribuições do zapatismo às resistências do México, América e o mundo, para dizer que são cinco.Comecemos por uma delas.
1) Por um mundo onde caibam muitos mundos.
Diversidade e identidade
Durante muitos anos, de fato durante os últimos dois séculos, o pensamento humano e também dos movimentos de resistência foi construído sob algumas premissas básicas. O pensamento moderno, sob o influxo da ilustração, do pensamento newtoniano e depois do positivismo gerou a visão de que poderiamos construir a verdade a partir da racionalidade. Construiu-se a idéia de que poderiamos encontrar através da ciência, a verdade, e com ela, construir leis universais do funcionamento da história. Nossos movimentos, os movimentos de resistência históricos adotaram esta visão. Se encontrávamos e compreendíamos esse funcionamento, só era questão de seguir as pautas dessa verdade científica para construir a revolução.
Esta idéia sobre a verdade, a racionalidade e a ciência, gerou um marco de pensamento patriarcal, linear, mecanicista, teleológico, que ajudou muito na construção de uma modernidade desenvolvimentista e em constante expansão. A idéia de progresso, desenvolvimento e crescimento se adotou pela humanidade, pela esquerda e por nossos movimentos como um fato sem questionamento da evolução humana.
Mas esse pensamento ajudou muito ao funcionamento de um sistema que precisamente precisa crescer sem obstáculos. É o funcionamento do capitalismo. O capitalismo cresce, ou perece.
Esse pensamento está em crise hoje. O zapatismo se inscreve na desestruturação desse pensamento. É por que as bases deste pensamento modernizador, desenvolvimentista, positivista causaram vários estragos.
Os zapatistas, o zapatismo, propõem um mundo onde caibam muitos mundos. O zapatismo propõe a idéia da verdade múltipla frente às leis universais de verdades únicas. O EZLN disse que "as verdades nascem, crescem,desenvolvem-se, decaem e morrem". O pensamento dominante ou hegemônico ajudou a criar a idéia de que se tinha que homogeneizar,desenvolver, modernizar. Esta visão ajudou a arrasar a diferença, as culturas, "os diferentes" em nome de uma modernidade racional que avançava inexoravelmente para um mundo melhor. Os povos índios, mas não só eles, sofreram as conseqüências desta visão. O zapatismo se inscreve numa onda de novas idéias que nos dizem que a história não está escrita, que não necessariamente avançamos para um sistema melhor, e que o múltiplo e o diverso não são um obstáculo, senão que as diferenças são uma riqueza a proteger, a preservar. A diversidade nos ajuda a avançar. Um mundo onde caibam muitos mundos é a proposta de um outro mundo onde convive, em unidade, a diversidade, sem que uns se imponham a outros. Um mundo onde cabem todos, não é só uma idéia utópica do futuro, é uma forma de ver-nos, sonhar-nos, falar-nos entre nós. Hoje a política não se faz mais em nome de verdades científicas. O zapatismo é parte desta nova forma de pensar, que dizemos, é pensar ao inverso.
2) Que o que mande, mande obedecendo.
Estado e poder
É suficiente tomar o poder político?, concebido este como o poder do estado, o poder que se considerava como o único e o mais importante. O zapatismo, e nós, cremos que não. Que poder do estado é um poder inevitável, sim, mas não é todo o poder, nem é todo o político. Mais importante que quem esteja no poder dizem os zapatistas é que quem está no poder, mande, mas mande obedecendo. Esta idéia com que o zapatismo contribui, é de novo uma idéia ao inverso. A esquerda construiu uma idéia providencial e heróica da tomada do poder. O caminho da transformação ou da queda do capitalismo é uma grande odisséia, quase sempre encabeçada por
um herói, enche de dor e sofrimento onde ao final do caminho, a vitória,isto é, a tomada do poder é a grande chegada, o grande dia, o momento em que se bifurca a história em duas grandes etapas. Num antes e num depois. A partir daí, e SÓ a partir daí, a história e o homem começavam a mudar. É o que Immanuel Wallerstein chama a estratégia de dois passos: tomar o
poder e depois, e só depois, mudar ao mundo. A estratégia dos movimentos de resistência girava ao redor desta rota. Era uma estratégia digamos, estadocêntrica.
Mas esta idéia também se deteriorou, ainda que siga sendo muito importante. O zapatismo, ao propor que o que mande, mande obedecendo, reconhece a idéia da representatividade, mas com novos e coletivos controles democráticos. Concebe às direções e as lideranças como resultado de um processo coletivo democrático, não como a vanguarda clarificante que deve guiar-nos ao grande dia da transformação. A história do zapatismo também está cheia de exemplos de como o estado e sua força não são o único referencial e muitas vezes nem o mais importante em sua estratégia política. Evidente que há conflito frente ao estado dominante e as elites mexicanas que governam. O levante armado deixa claro isto. Mas seu atuar parecesse uma lógica muito mais ampla, sua agenda não só define o conflito estatal. Há outras áreas, "outra coisa" dizem os colegas zapatistas, que é desenvolver suas próprias forças, dialogar com o resto, pensar nas alternativas, falar delas. Tudo isso não necessariamente está unido de forma direta com o poder estatal.
Mandar obedecendo significa repensar o poder. Não é só uma proposta ética, senão uma proposta que desarticula a lógica do poder tal e como a conhecemos. Desarticular as regras do poder implica evidentemente a luta acima, contra os senhores do poder e a exploração mas também abaixo, entre nós, rompendo os esquemas de dominação em nossas famílias, trabalho e
escolas; entre homens e mulheres, entre adultos e jovens, entre raças, em nossas organizações e coletivos, em nossas relações cotidianas. É gerar uma nova relação que permita a construção de um novo poder que decida de baixo para acima, que se autogoverne e determine assim mesmo. Implica construir uma ordem social alternativa e global.
Esta proposta é crítica do sistema imperante em seu conjunto e não só do governo da vez. É uma revisão à lógica do sistema e não só uma crítica aos dominadores. Mandar obedecendo significa também a subordinação do estado aos povos. Implica a democratização cada vez mais profunda do novo poder e o correspondente processo de devolução progressiva das funções usurpadas pelo estado à sociedade mesma. Não há que tomar o poder, senão construí-lo. Não há que tomar o sistema por assalto, há que deconstruí-lo e nesse processo experimentar, desenhar, sonhar, um sistema alternativo.
3) Somar e não rachar. Construir e não destruir. Convencer e não vencer. Representar e não suplantar.
Nova forma de fazer política.
Mas, como construir então um sistema alternativo global? O zapatismo com o mandar obedecendo, e o mundo onde caibam muitos mundos propõe algumas pistas para isso. Propõem um terceiro elemento. A construção de um novo mundo, de um mundo outro, precisamente de outra política. A história da esquerda de nossos movimentos está cheia de tristes exemplos onde os piores vícios do poder dominante foram reproduzidos em nossas organizações, em nossas decisões, em nossas estratégias. É uma história que separava os meios dos fins. Se procurávamos um mundo melhor para todos, o socialismo, o comunismo ou a revolução a secas, isto justificava qualquer meio para se chegar a isso. Hoje, através da história, sabemos que
este pensamento pragmático deixou muito que desejar e que as cooptações, a corrupção, o sectarismo, o vanguardismo, o setorialismo, o autoritarismo abalaram a credibilidade e a esperança dos povos que viram seus dirigentes revolucionários converter-se em ditadorezinhos em seus partidos, em suas organizações. Que viram enriquecer-se às classes que falavam de um mundo igualitário. Que viram reproduzir o poder que tanto se criticava. Os que se diziam dominados, convertiam-se em novos dominadores. Uma nova ética, fundada em espaços coletivos é condição imprescindível para um novo mundo. Por isso o zapatismo propõe aos movimentos somar e não rachar, acostumados estes à divisão, à discussão estéril. Propõe construir e não destruir,acostumada a esquerda a dilapidar todo o feito de mudança para controlar tudo o que quer. O zapatismo propõe convencer e não vencer, acostumada a esquerda aos piores vícios do acordo a escuras, da votação que achata, do acordo imposto. Propõe representar e não suplantar; construídas as organizações e os partidos com as vozes de muitos que na prática costumam ser a voz de um só.
Sem novos movimentos, que se desenvolvam, experimentem e atuem dentro de um novo marco ético, o outro mundo se afasta, com o descrédito frente aos olhos dos povos.
4) Há que caminhar ao ritmo do mais lento.
Revolução e sujeito de mudança
Eliminando o velho vanguardismo, esse que dizia que se uma elite clarificada tinha o programa e a estratégia adequadas, as massas iriam correndo abraçar a revolução, o zapatismo entende mais a nossas estratégias de resistência e construção de alternativas como um processo. A imagem "ultra" de empurrar metas que ainda não são realizáveis se derruba frente à idéia de que há que caminhar ao ritmo do mais lento. Eliminando de novo a intenção de impor idéias e estratégias que por muito corretas, por muito avançadas que sejam não podem ser cristalizadas sem o outro, sem os outros, que devem compartilhar, entender e enriquecer ditas propostas. Caminhar ao ritmo do mais lento é construir um processo coletivo para caminhar, e não correr deixando ao resto atrás.
Por outro lado, o mesmo levantamento rompia com o esquema do sujeito revolucionário. Enquanto uma parte da esquerda se nega a reconhecer que não só há um ator de transformação, o pensamento e a ação zapatista são um exemplo entre muitos outros de que nenhum setor tem um papel histórico predeterminado. E mais ainda, que a classe operária industrial, à que se atribuía um papel protagônico teve posições bem mais conservadoras frente à emergência de novos atores como os povos índios, os trabalhadores desempregados ou os movimentos de mulheres e pelo ambiente.
5) Há que caminhar perguntando.
Diálogo
Finalmente os zapatistas dizem que há que caminhar perguntando. Toda a concepção zapatista é uma forte crítica ao pensamento ortodoxo de esquerda, mas mais ainda, ao pensamento moderno ilustrado. Caminhar perguntando implica o reconhecimento dos outros como atores para as alternativas e a construção, digamo-lo assim, revolucionária. Caminhar perguntando se inscreve numa visão profundamente democrática interna e externa dos atores. Implica reconhecer que podem existir outras estratégias, implica reconhecer que devem mediar estratégias de consulta e consenso ao interior de nossos movimentos e que o diálogo como forma de articulação é um veículo poderoso entre os movimentos para desarticular muitas formas de dominação de maneira radical.
A ação do EZLN está cheia de exemplos de caminhar perguntando: Desde processo de consulta e construção interna do zapatismo, até os processos de encontro nacional e internacional que o EZLN convocou em inumeras ocasiões aos movimentos. Em todos os casos, das cinco contribuições que comentamos aqui, a praxe zapatista representa um experimentar constante.
Não desejamos mitificar aqui a ação zapatista. Sabemos e conhecemos suas próprias limitações, contradições e erros. Parece-nos, no entanto, que o movimento zapatista faz contribuições ao pensamento crítico que não podemos deixar de lado porque são assinalamentos profundos de uma reconstituição de nossas formas de pensar e construir nosso horizonte utópico. Estas cinco contribuições se entrelaçam cada uma, estes cinco sonhos são como as cinco pontas de uma estrela, a zapatista que abre uma discussão universal sobre o poder, a diversidade, o estado, a revolução e as formas de fazer política. A estrela vzapatista não é um novo dogma. É uma fissura no pensamento hegemônico para pensar ao inverso e para olhar do outro lado do muro.
Gretas e fissuras do gordo muro capitalista
Retomemos, finalmente nossa idéia inicial. Voltemos ao muro sistêmico do qual falávamos ao começo desta intervenção. Olhemos novamente no muro,afastemos a vista. Saiamos do zapatismo. Procuremos finamente por toda a parede do capitalismo. Veremos, se soubermos ver, que há mais fissuras e coarteaduras. O Exército Zapatista de Libertação Nacional é um sintoma,
um sinal, uma pista, um sinal entre muitas outras. Uma greta entre muitas outras.
Frente aos limites do sistema formal, frente à pobreza e a exclusão uma pequena parte dos povos resiste, mas também experimenta com novas formas de fazer relação humana. Os sem terra, os zapatistas, os piqueteros territorializam suas resistências, criando pequenas zonas, pequenas ilhas de libertação. Fissuras do sistema. Erros da Matriz. Outros mundos, "outras coisas" como dizem os zapatistas. Nesses espaços que não chegam a erosionar o funcionamento geral sistêmico, digamos a fortaleza do muro, no entanto, opõe-se uma ação e um pensamento diferente ao hegemônico. São laboratórios de experimentação: juntas de bom governo, assembléias populares, terras tomadas que produzem; são sinais, pistas de como se olha
a vida, o mundo, do outro lado do muro. Frente à individualização e a concorrência se opõem o comunitarismo, a solidariedade e a cooperação. São espaços onde se deconstrói o pensamento dominante. São espaços onde vemos alguns sinais de como seria uma nova educação, novas relações de intercâmbio e de comércio, formas experimentais de produzir cultura e
informação e o mais importante, formas novas de poder coletivo. Nessas experiências, mas também em muitas outras em todo o planeta, não há distinção entre lutas políticas e sociais, entre lutas materiais e culturais. Igual se põe a mover a produção que questionar as relações hierárquicas e patriarcais. Igual há formas políticas de resistência frente ao capital e o neoliberalismo que reivindicação da identidade cultural local. Igual se luta local e nacionalmente que globalmente. Nesses espaços se começou a derrotar o poder simbólico que mantinha atados aos grupos subalternos. A greta no muro começou a alargar-se.
Pensamos que essas fendas, essas fissuras, essas ilhas de libertação podem crescer, podem articular-se. Podemos, como diz o Subcomandante Marcos, fazer de nossas ilhas uma barca para ir encontrar-nos. Uma fissura que se reúne com outra pode provocar que se desmorone uma parte do muro. Centenas de pequenas gretas, enredadas entre si, de muitas formas, de muitos
tamanhos poderia quiçá, talvez, derrubar e fazer estourar ao muro por completo.
Não o sabemos com certeza. Quiçá valha a pena tentá-lo. Quiçá sim há algo melhor por trás do muro. Quiçá seja esse outro mundo, que dizemos, que é possível.
Enrique Pineda é integrante da agrupação mexicana Jovens em Resistência Alternativa e recém egressado da carreira de sociologia na Universidade Autônoma Metropolitana Xochimilco.
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Confortavelmente entorpecidos
Se não me engano é no início de "Crash" que o personagem de Don Cheadle diz que as pessoas perderam a capacidade de se tocar: andamos em ruas lotadas, esbarramos uns nos outros, mas não nos tocamos, e aos poucos vamos nos desumanizando. Acho que o problema é bem pior que isso: não perdemos apenas capacidade do toque, mas também de ver, de ouvir, de observar, enfim, de sentir o mundo e as pessoas ao nosso redor. À noite, quando tudo está no mais absoluto silêncio e estamos tão cansados que não conseguimos pensar em nada, ou tão preocupados que não conseguimos dormir, se soubermos ouvir dá pra reparar que o silêncio também tem seus sons, sutis, bonitos e distantes, uma verdadeira trilha sonora que varia de acordo com o ambiente, seja urbano ou rural. Da mesma maneira, mesmo com todas as luzes apagadas, a escuridão tem luzes, vultos, imagens, e quanto mais as vemos mais aprendemos a enxergá-las. Até com os olhos fechados dá pra ver cores e formas! Se isso já acontece numa noite escura e silenciosa, imaginem quantas coisas deixamos de observar em nosso dia-a-dia... É como se o que está "incorporado" ao ambiente se tornasse invisível para nós: nos mesmos caminhos que eu percorro há anos diariamente, volta e meia encontro coisas que nunca tinha visto antes e me pergunto como é que aquela casa ou loja ou árvore esteve sempre ali sem eu nunca ter me dado conta... E nas raras vezes em que paro pra prestar atenção nesses "detalhes" que constituem a realidade à minha volta eu descubro tantas coisas novas... E o mesmo se pode dizer das pessoas com quem convivemos, ou simplesmente que "esbarramos" por aí, pelas quais costumamos "passar" sem tentar observar o quanto de humano e de dramático há em cada uma delas, não olhamos nos olhos, não interagimos, nem mesmo nos perguntamos o quanto elas sofrem ou fazem sofrer. Não sabemos mais ouvir, ouvir de verdade, com a alma, daquele jeito que não se precisa responder nada pra a outra pessoa saber que você a compreendeu. Não temos "tempo" para esses detalhes, mas é mais que uma questão de “tempo”: fomos educados a viver "no automático", e vamos perdendo progressivamente o que nos torna humanos, a capacidade de sentir, sem nos darmos conta de que enxergar os "detalhes" à nossa volta é enxergar a própria realidade... E isso não é à toa: o mesmo sistema que faz com que a maioria da população mundial não se dê conta da exploração a que é submetida pelo sistema capitalista ou da manipulação da mídia é o mesmo que nos condiciona a não olharmos ao nosso redor. Enxergar a realidade "imediata", a realidade que nos rodeia, nos leva necessariamente a olhar para as crianças nas sinaleiras, as empregadas domésticas, os loucos nas praças, as favelas, enfim, todo esse cenário urbano "invisível" que explode diante de nossos olhos, com personagens ao mesmo tempo fantásticos, incômodos e "invisíveis", e tudo isso conseqüentemente, leva à conscientização. Ver a realidade "micro" nos leva a questionar a realidade "macro", nos leva a sair da passividade, da normalidade, ou pelo menos é um primeiro passo. Não é possível ser ao mesmo tempo lúcido e normal, a lucidez exige coragem, exige loucura, pois a realidade não é normal. Acho que boa parte da esquerda que se diz contra o sistema não consegue ir muito além das palavras e da disputa pelo poder porque os militantes que tanto lêem e dizem querer fazer a revolução não conseguem olhar à própria volta, tornam-se cegos querendo mudar o mundo e, no caminho, acabam se perdendo e querendo apenas tomar o mundo para si. Se não prestamos muita atenção, acabamos lutando contra a Matrix caindo numa armadilha ilusória da própria Matrix. Isso me lembra uma coisa que Saramago disse no documentário "Janela da alma", ao falar sobre a inspiração para escrever "Ensaio sobre a cegueira". Ele disse que a idéia do romance surgiu de uma simples pergunta em sua mente: e se ficássemos todos cegos? Mas na mesma hora ele se deu conta: nós já estamos todos cegos, e aí surgiu o livro como uma metáfora. Acho que é isso: estamos cegos, criamos uma barreira, uma “proteção” pra a realidade, um casulo, um muro. Tendo olhos, não vemos, e tendo ouvidos, não ouvimos, e isso é muito grave, isso nos anestesia, nos ameniza a dor e a responsabilidade, mas nos impede do mais importante, que é sentir... Por isso o condicionamento a que somos submetidos desde crianças é tão importante: ao mesmo tempo em que somos “alienados” por todos os meios possíveis, de vez em quando são convenientes também certas doses homeopáticas de realidade crua através do sofrimento, para irmos nos “imunizando” e nos tornando cada vez mais insensíveis. Obviamente, para as “castas” mais baixas essas doses não são nada homeopáticas... E, assim, nos tornamos "confortavelmente dopados", como na música do Pink Floyd. Lutar contra isso é necessário e exige um grande esforço de reeducação. Saber sair à rua e interpretar toda a poesia contida na história daquelas pessoas, a força, o choro, o grito, o vômito. Não perder a capacidade de admirar as coisas simples, e ao mesmo tempo não deixar de tremer de indignação diante das injustiças do dia-a-dia. Reaprender a sentir é necessário tanto para apreciarmos as belezas "ocultas" que o cotidiano nos oferece quanto para que o soco diário na boca do estômago doa e nos force a chorar, a gritar, enlouquecer, a agir.
quarta-feira, 13 de junho de 2007
Apenas um sonho...
"O maior erro que podemos cometer é achar que estamos vivos quando estamos na verdade dormindo na sala de espera da vida. O segredo é combinarmos as habilidades racionais da vida desperta com as possibilidades infinitas de nossos sonhos. Se soubermos fazê-lo, poderemos fazer qualquer coisa. Já teve um trabalho que odiava e ao qual se dedicava muito? Depois de trabalhar o dia todo, você chega em casa, deita e fecha os olhos. Aí você acorda e percebe que o dia de trabalho havia sido um sonho. Já é ruim o bastante que vendamos nossa vida desperta por um salário mínimo, mas agora eles ficam com seus sonhos de graça." - De um personagem de "Waking Life”.
sábado, 9 de junho de 2007
Certas canções
NO SURPRISES
Radiohead
A heart that's full up like a landfill
A job that slowly kills you
Bruises that won't heal
You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us
I'll take a quiet life
A handshake of carbon monoxide
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent, silent
This is my final fit, my final bellyache with
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises please
Such a pretty house, such a pretty garden
No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises please (let me out of here)
STUCK IN A MOMENT YOU CAN'T GET OUT OF
U2
I'm not afraid of anything in this world
There's nothing you can throw at me
That I haven't already heard
I'm just trying to find a decent melody
A song that I can sing in my own company
I never thought you were a fool
But darling, look at you
You gotta stand up straight, carry your own weight
These tears are going nowhere, baby
You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment
And now you can't get out of it
Don't say that later will be better
Now you're stuck in a moment
And you can't get out of it
I will not forsake, the colors that you bring
But the nights you filled with fireworks
They left you with nothing
I am still enchanted by the light you brought to me
I listen through your ears, and through your eyes I can see
And you are such a fool
To worry like you do
I know it's tough, and you can never get enough
Of what you don't really need now ... my oh my
You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment
And you can't get out of it
Oh love look at you now
You've got yourself stuck in a moment
And you can't get out of it
I was unconscious, half asleep
The water is warm till you discover how deep
I wasn't jumping for me it was a fall
It's a long way down to nothing at all
You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and you can't get out of it
Don't say that later will be better now
You're stuck in a moment and you can't get out of it
And if the night runs over
And if the day won't last
And if our way should falter
Along the stony pass
And if the night runs over
And if the day won't last
And if your way should falter
Along the stony pass
It's just a moment
This time will pass
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Panis et circensis
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Amanhã serei o que hoje não posso nunca ser...
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos
O bicho cotidiano
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Manuel Bandeira
Ah, se eu pudesse sozinho dinamitar a ilha de Manhattan...
Poema não indicado para momentos de crise existencial ou depressão.
ELEGIA 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios de espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Que espécie de homem sou
É necessário agora que eu diga que espécie de homem sou. Meu nome, não importa, nem qualquer outro pormenor exterior meu próprio. Devo falar de meu caráter.
A constituição inteira de meu espírito é de hesitação e dúvida. Nada é ou pode ser positivo para mim; todas as coisas oscilam em torno de mim, e, com elas, uma incerteza para comigo mesmo. Tudo para mim é incoerência e mudança. Tudo é mistério e tudo está cheio de significado. Todas as coisas são "desconhecidas", simbólicas do Desconhecido. Em conseqüência, o horror, o mistério, o medo por demais inteligente.
Pelas minhas próprias tendências naturais, pelo ambiente que me cercou a infância, pela influência dos estudos realizado sob o impulso delas (dessas mesmas tendências), por tudo isto meu caráter é da espécie interiorizada, concentrada, muda, não auto-suficiente, mas perdida em si mesma. Toda a minha vida tem sido de passividade e dúvida. Todo o meu caráter consiste no ódio, no horror, na incapacidade que invade tudo quanto em mim existe, física e mentalmente, para atos decisivos, para pensamentos definidos. Nunca tive uma decisão nascida de um autocomando, nunca uma denúncia exterior de uma vontade consciente. Todos os meus escritos ficaram inacabados; sempre novos pensamentos se interpunham, associações de indéias extraordinárias e inexcluíveis, de término infinito. Não posso evitar o ódio que têm meus pensamentos de ir até o fim; a respeito de uma simples coisa, surgem dez mil pensamentos e milhares de interassociações com eses dez mil pensamentos e careço de vontade de eliminá-los ou detê-los, nem tampouco de reuni-los num pensamento central, onde os seus pormenores sem importância mas associados podem-se perder. Introduzem-se em mim; não são pensamentos meus, mas pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não me sinto inspirado, deliro. Sei pintar, mas nunca pintei; sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, amáveis afagos de imaginação acariciam meu cérebro;mas deixo-os ali dormitar até que morram, pois não tenho poder de corporificá-los, de torná-los coisas do mundo exterior.
O caráter de minha mente é tal que odeio os começos e os fins das coisas, porque são pontos definidos. Aflige-me a idéia de que se descubra uma solução para os mais altos e mais nobres problemas de ciência e filosofia; horroriza-me a idéia de que uma coisa qualquer possa ser determinada por Deus ou pelo mundo. Enlouquece-me a idéia de que as coisas mais momentosas possam realizar-se, de que os homens pudessem todos ser felizes um dia, de que se encontrasse uma solução para os males da sociedade, mas nas suas concepções. Contudo não sou mau nem cruel; sou louco e isso dum modo difícil de conceber.
Embora tenha sido um leitor voraz e ardente, não me lembro contudo de nenhum livro que tenha lido a tal ponto eram minhas leituras estados de minha própria mente, sonhos meus, e mais ainda provocações de sonhos. Minha própria recordação de acontecimentos, de coisas exteriores, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão conservo em mente do que tem sido minha vida passada. Eu, o homem que afirma que o hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje.